O QUE SÓ MINAS PODE TRAZER




Numa época, como a atual, marcada pela troca vertiginosa e muitas vezes gratuita de referências identitárias, a associação em um único enunciado dos termos “Mostra Contemporânea de Arte Mineira” impõe-nos umas poucas (e boas) questões de ordem estético-cultural e política.

A primeira e mais óbvia delas diz respeito ao objeto mesmo que se pretende colocar à mostra, em clave contemporânea: Quais seriam os elementos técnicos e formais que caracterizam a “arte mineira”?

Alguém que se aplicasse no exercício de fornecer uma resposta quando menos aceitável a essa questão logo se veria às voltas com uma segunda: Qual a pertinência de se reunir, na São Paulo da primeira década do século XXI, um rol de artistas, grupos e iniciativas que só têm entre si, além da condição de “contemporâneos”, o fato de terem Minas Gerais como base principal para suas realizações?

Por fim, mas não por último, surgiria uma questão bem mais complexa: Quais seriam os traços que singularizam o fazer de cada um dos participantes da Mostra Contemporânea de Arte Mineira, ao ponto de justificar sua aproximação como um gesto que assinale, mais que uma mera circunstância, uma efetiva e substancial transformação no modo como nós, mineiros, nos relacionamos com a trama de símbolos e signos em permanente rotação a que se dá o nome de cultura brasileira?

“Mineiramente”, poderíamos responder que quisemos, com esta Mostra, materializar a idéia de que “Minas são muitas”, apoiando-nos naquele belo mote de João Guimarães Rosa que o uso indiscriminado e pragmático transformou em bordão surrado ao longo dos tempos.

Optamos, ao contrário – e ainda assim, mineiramente, mas já sem as matreiras aspas – por fazer do próprio esforço de responder as indagações listadas acima a razão de ser desta iniciativa que tem origem na constatação do que é, três anos depois de iniciada a trajetória do Grupo 3, nossa identidade artística: a de uma pequena e atuante coletividade de artistas mineiros radicada em São Paulo que carrega, no modo singular como busca se dar a conhecer, algo da decantada convivialidade típica do estado natal de seus integrantes.

Organizar a Mostra Contemporânea de Arte Mineira representa, por isso, para nós, a possibilidade de compartilhar com o público desta cidade que tão generosamente acolheu o Grupo 3 de Teatro, a descoberta de outros modos de fazer arte e cultura que não os hegemônicos.

Convida-se, aqui, a um tipo de convívio entre diferenças estético-culturais que, de uma perspectiva nem um pouco ingênua, pretende trazer dados novos para o debate sobre o estado atual da arte e da cultura produzidas no Brasil. Se não é difícil aos brasileiros de todas as regiões – e mesmo a um grande número de estrangeiros – reconhecer a Minas Gerais contemporânea como um pólo de excelência em muitos campos da criação artística, ainda se sabe pouco sobre como tal condição veio sendo desenhada, nas duas últimas décadas, por indivíduos e grupos aos quais não escapou a percepção de que o que faziam era tentar criar novas condições para a “partilha do sensível” (Jacques Rancière) num certo lugar do Brasil fortemente marcado pela idéia de tradição como a cristalização de um gesto, e não como a contínua ativação da potência inaugural desse gesto.

Por reconhecer-se nas escolhas que fez, com a ajuda de curadores plenamente envolvidos com a dinâmica da produção cultural em Minas, é que o Grupo 3 de Teatro acredita que a Mostra Contemporânea de Arte Mineira será palco privilegiado para que o público de São Paulo conviva por alguns dias com as questões que a realização do evento provoca certo de ter diante de si – e isso é o mais importante –, alguma da mais original arte feita no Brasil dos tempos que correm.

Original tanto por se organizar a partir de parâmetros novos, quanto por remeter às origens culturais sincréticas do povo das montanhas – à nossa ancestralidade barroca , podemos dizer, no que esse termo representa de “aceitação deliberada da pluridimensionalidade, da instabilidade e da mutabilidade como categorias produtivas no universo da cultura”, para reproduzir, em outro contexto, uma boa definição do “segundo barroco ou neobarroco” feita pelo ensaísta Arlindo Machado em seu livro Arte e mídia (ed. Jorge Zahar, 2007).

Não é por outro motivo que o espetáculo intermídia que abre a Mostra, montado com exclusividade por um grupo de criadores de diversas áreas artísticas, intitula-se Barrocodelia , O título foi sugerido por um estudo do livro Catatau , de Paulo Leminski, publicado em 1989 pelo caderno “Mais!” da Folha de S.Paulo , em que o poeta, tradutor e crítico Haroldo de Campos relê a prosa de invenção leminskiana comparando-a ao romance histórico Viva o povo brasileiro , de João Ubaldo Ribeiro. Em comentário à reação de René Descartes – que, no livro de Leminski, como Cartesius, ou Cartésio, acompanha Maurício de Nassau em sua aventura nos trópicos – ao “disparo fecal” que lhe faz um urubu, Haroldo anota que o filósofo embarca “ a gosto ou a contragosto, no seu sonho psicodélico. Melhor dizendo, barrocodélico, pois de um cometimento neobarroco (...). ”

Síntese da diversidade de pontos de vista em torno dos quais se organiza a Mostra Contemporânea de Arte Mineira, nossa Barrocodelia – que também tem partes com a “afrociberdelia” do Mangue Beat de Pernambuco – vem para ajudar-nos a falar sobre aquele lado mais luminoso da arte e da cultura de Minas Gerais que resulta da capacidade de, entre outros desafios, enfrentar o trauma histórico de se situar, a um só tempo, tão perto e tão longe do mítico eixo Rio-São Paulo.

Que essa Minas existe, confirma-o este trecho do prefácio escrito por Caetano Veloso para o livro Os sonhos não envelhecem – Histórias do clube da Esquina , de Márcio Borges: “ Eles traziam o que só Minas pode trazer: os frutos de um paciente amadurecimento de impulsos culturais do povo brasileiro, o esboço (ainda que muito bem-acabado) de uma síntese possível. Minas pode desconfiar das experiências arriscadas e, sobretudo, dos anúncios arrogantes de duvidosas descobertas. Mas está se preparando para aprofundar as questões que foram sugeridas pelas descobertas anteriores cuja validade foi confirmada pelo tempo. Em Minas o caldo engrossa, o tempero entranha, o sentimento se verticaliza”.